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  • Daniel Arcades

Primeiro sitcom produzido na Bahia exalta a força da nordestinidade

Forrobodó da Paixão reúne elenco predominantemente nordestino e busca não perpetuar estereótipos sobre a região

Escrito por Raulino Júnior


Carlos Betão em cena de Forrobodó da Paixão. Foto: Wrias Meireles

Atores se maquiando, produção de arte organizando o cenário, técnicos passando pra lá e pra cá, teste de som, ajustes no microfone, orientações do diretor: todas essas ações  foram acompanhadas no último sábado, 16 de março, durante a espera para o início das gravações de mais um episódio da série Forrobodó da Paixão, no Teatro Sesc Casa do Comércio, em Salvador. Naquele dia, a equipe chegou às 6h20 e só sairia às 20h do teatro, porque teria ensaio e todos os ajustes para a próxima gravação. O sitcom (abreviação da expressão situation comedy, que pode ser traduzida como “comédia de situação”), dirigido por Fernando Guerreiro e produzido pela Têm Dendê Produções, conta, em oito episódios, “a história do Bar do Paixão, localizado em Caicó, no Rio Grande do Norte. Com a morte do dono do estabelecimento de forró tradicional, Legítima, uma jovem cozinheira, precisa se desdobrar para manter o local funcionando em meio a relações amorosas, problemas financeiros, herdeiros loucos e os constantes ataques de sua mãe, uma milionária disposta a qualquer coisa para derrubar o lugar”, como consta em texto divulgado no site da produtora. As gravações em Salvador começaram no dia 12 e se estenderão até 20 de março. Carlos Betão vive o protagonista, Paixão. Além dele, o elenco é formado por Mariana Costa (Legítima), Edmilson Barros (Paulista), Ana Mametto (Paloma), Matteus Cardoso (Artemides), Álvaro Dantas (Carneirinho) e Denise Correia (Judith). Apenas Denise não nasceu no Nordeste. Ela é natural de Alvorada do Sul, cidade da região metropolitana de Londrina, no Paraná. O sitcom será exibido pelo STB Nordeste.

Em entrevista concedida pelo WhatsApp, Vânia Lima, diretora da Têm Dendê, revelou ao Desde como nasceu a ideia de produzir a série: “Eu nasci no interior da Bahia e meu avô era dono de uma venda, com sinuca. Como ele e minha avó eram separados, eu cresci o visitando esporadicamente e fantasiando sobre esse bar. Então, quando escrevi o primeiro argumento, meu avô tinha partido, e eu estava com essa história inicial na cabeça: um dono de um bar no interior do Nordeste que deixa uma herança cheia de amor, dívidas, música com confusão de um herdeiro perdido. Os personagens e as histórias foram sendo ajustados no encontro com os roteiristas Caio Guerra, Letícia Simões, Cláudio Simões e Daniel Árcades, a seguir com Fernando Guerreiro e Alan Miranda”. Questionada sobre quais questões, para além do humor, a série pretende trazer à tona, Vânia aposta na resistência e na quebra de estereótipos: “Acredito muito que estamos contando uma história de amor e humor. E o humor é um lugar de resistência. Assumimos um sotaque do Nordeste, de uma região do país que é o Rio Grande do Norte, pouco retratada. Trazemos um elenco diverso e talentoso, picardia e acidez para mostrar como os rótulos do ‘regionalismo’ precisam ser ultrapassados”. Betão, que enviou áudio pelo WhatsApp para responder às perguntas do blog, enfatiza o orgulho que o personagem Paixão tem em pertencer ao seu território: “O Paixão é um personagem solar, é um personagem que tem uma alegria  de viver. Além disso tudo, ele é um cara que tem um pertencimento da sua comunidade, do seu território, da sua gente, da sua cultura. Ele é um adido cultural de Caicó. O seu bar é uma espécie de Ministério da Cultura de Caicó. Lá, ele reúne os melhores músicos de forró. É um resgate do forró, um ritmo tipicamente nordestino, nosso, pé no chão. Então, fazer esse personagem é um aprendizado muito grande, porque estamos diante de uma persona que tem um carinho, um apego, um interesse da sua terra, das coisas da sua terra, da sua cultura. Isso é muito bom”. O ator ainda diz como é fazer o protagonista e estar no elenco de uma iniciativa pioneira na produção cultural de Salvador: “Fazer o protagonista dessa série é um presente maravilhoso para mim como ator, para a minha carreira. E fazer parte da primeira série em formato sitcom gravado aqui na Bahia, produto da casa , abrindo portas para mais uma possibilidade, para mais uma frente de trabalho para nós, artistas, atores, é importantíssimo. Eu em sinto muito honrado, muito alegre”, finalizou.

Fernando Guerreiro, diretor de teatro e atual presidente da Fundação Gregório de Mattos (FGM), é movido a desafios e contou ao blog o que foi determinante para que aceitasse dirigir o primeiro sitcom gravado na Bahia. “A possibilidade de exercitar o humor em outras linguagens. Na verdade, eu tenho uma paixão muito grande pelo humor. A segunda coisa: o humor nordestino. Porque é uma comédia ambientada em Caicó e tem um elenco basicamente nordestino, quase 100%. Por incrível que pareça, a única pessoa que não é nordestina é Denise, mas veio pra cá com seis anos. Então, é nordestina. Eu tenho uma vontade muito grande de fazer alguma coisa na universidade sobre o humor do Nordeste, que eu acho que ele é muito característico”. Guerreiro opinou sobre a importância de projetos dessa natureza para a produção cultural nordestina: “Fundamentais. Acho que tem uma coisa muito legal, que é assim: a Bahia se desconectou um pouco do Nordeste. Parece que a Bahia não é nem Nordeste nem Sudeste. Tem um momento assim que você fica no meio do caminho. Quando eu comecei a minha carreira teatral, em 1970, a segunda peça que eu montei foi um cordel, chamado ‘Comigo ninguém pode’. E nessa época a gente tinha uma conexão muito grande, até de sotaque, de tudo, com o Nordeste. Depois, isso descolou. Ficou parecendo que a Bahia está fora de tudo. E eu acho importante reforçar, com toda questão política que está aí, que o Nordeste é um país, que o Nordeste tem caraterísticas próprias e é muito interessante”. Fernando também falou sobre o desafio de dirigir um sitcom, pois os atores têm que equilibrar as caraterísticas de atuação para teatro e para TV: “É um aprendizado. Ainda estamos tateando. Muitas vezes, gera uma confusão aí no meio. Como a plateia é apresentada, quem está em casa vai ver o público, será algo mais próximo do Sai de Baixo. Quem assistir vai saber que isso é, praticamente, uma peça filmada. Já tem mais liberdade para você trabalhar. Tem um coisa aí que já vê um caminho desenhado, que acaba facilitando bastante”.


Foto: Wrias Meireles



A essa altura, você já deve estar se perguntando: por que o nome não é Forrobodó do Paixão? Guerreiro responde: “Resolvemos botar ‘da Paixão’ porque tem várias coisas amorosas. Todas as tramas acabam descambando para um caso amoroso. Teve essa discussão, mas acabou ficando ‘da'”.

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O blog agradece ao jornalista Kirk Moreno, à mediadora cultural Silara Aguiar, ao produtor Cristiano Luz e a Fernando Guerreiro por possibilitarem a produção desta matéria.


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